Gastronomia por Roberta Sudbrack
26/11/2007 ..
Jantar em homenagem aos 200 anos da chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil
e Eu não fico sem... (na vida!)
Hoje o post tem dois temas, porque essa semana vai ser outra loucura e até quarta-feira não conseguirei dar as caras por aqui! Terei a honra de chefiar o primeiro jantar oficial em homenagem aos 200 anos da chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil. O jantar será no Consulado de Portugal aqui no Rio, com toda a pompa e circunstância que bem me lembram os meus tempos de chef presidencial! Estou adorando! E pirando!
Pesquisas, estudos e reflexões mil, foram necessárias para chegar ao menu ideal. Optei por não fazer releituras, mas sim, criar um menu moderno na concepção, apesar de extremamente conectado com a época, no que diz respeito aos costumes, aos ingredientes e principalmente às técnicas de cocção possíveis para aquela época. O resultado foi uma viagem no tempo e no espaço, que imagino, será divertida e instigante!
Em primeira mão então, o que a Família Real Portuguesa comeria, se por essas bandas aportasse hoje em dia e me encontrasse na cozinha:
Sardinha em marinada de manteiga de garrafa e açúcar de mandioca
Camarões curtidos em sal e sementes de quiabo (caviar nacional)
Consommé de ervilhas, arroz fermentado, brotos e ervas nativas
Galinha d´angola assada em baixa temperatura, migas e marmelada de frutas secas
Fatias de parida em duas temperaturas
Bolinho de estudante
É isso!
Agora deixo o final do post para vocês escreverem e volta na quinta!
Eu não vivo sem... (na vida!)
Verdade
Respeito
Desafios
Amor
Emoção
Cachorro
Chocolate
Brigadeiro
Livros
Frango ensopado com polenta da minha avó
O sorriso da minha equipe
A casinha laranja à beira do canal
A alegria de trabalhar no que eu verdadeiramente amo!
Até!
29/11/2007 ..
Mesas...
Mal pude acreditar quando cheguei ao Palácio São Clemente, sede do consulado de Portugal no Rio de Janeiro, e avistei aquela cozinha de Palácio. Aquela cozinha de porão! Normalmente as cozinhas de Palácio são no porão. Aprendi a conviver e a amar isso como ninguém. Sempre digo ao meu pessoal: somos serviçais, não podemos jamais esquecer que entramos e saímos pela porta dos fundos. Enquanto isso for natural para vocês, é vocação, quando deixar de ser, mudem de endereço e profissão.
Tenho certeza de que meus olhinhos brilharam, igual criança quando avista um carrossel em parque de diversões, quando avistei aquela cozinha. Adoro carrosséis, acho que guardam um certo tipo de poesia infantil, ingênua e praticamente imune às intempéries da vida moderna. Mas, além dessa característica, eles carregam outras vitais, quando o assunto é excelência, como a firmeza, a robustez e o equilíbrio. Equilíbrio quase me faltou ontem, quanto solicitei aos funcionários do Palácio que nos deixassem a sós, eu e minha equipe naquela cozinha, para que pudéssemos nos concentrar nas execuções, cada uma mais complexa e minuciosa do que a outra. Por acreditar que era meramente um luxo de uma cozinheira “famosa”, isso quase se tornou um caso de Estado! Até seguranças e a Policia Militar foram chamados para me amedrontar! Como se eles não tivessem nada mais importante para fazer, mas enfim... Enfim, como naquele dia, naquele Palácio, aquela cozinha era chefiada por uma Chef que já foi presidencial e que tem pulso de general – era assim que eu era conhecida no Palácio da Alvorada! – ninguém se atreveu a colocar os pezinhos na cozinha até o final da noite quando soltamos a nossa última fatia de parida! Como os carrosséis, eu também sei o momento em que a firmeza e a robustez são necessárias, e por via das dúvidas, sempre ando muito bem acompanhada!
Passado esse incidente, finalmente consegui ir até o salão e avistei a mesa. Adoro mesas. Especialmente as grandes, imponentes e soberanas. Aquelas que encaram a gente nos olhos e dizem: “E então? Agora é com você!”. A mesa de banquetes do Palácio da Alvorada me fitou nos olhos durante sete anos, sempre com esse mesmo olhar: “E então?”. No meu último banquete, que aliás foi Real, servido ao Príncipe de Gales, entrei sozinha no salão, adorava esse ritual, que para mim era quase sagrado. Olhei e fotografei tudo, os mínimos detalhes na mente, para que no futuro eu pudesse acreditar que tudo aquilo realmente aconteceu na minha vida, e olhei para a “minha” mesa pela última vez. Mas dessa vez antes que ela dissesse alguma coisa, com os meus olhos rasos d´água, eu disse: “Então, valeu?”.
2000-2006 Globo.com. Todos os direitos reservados.